Ciclismo – Estratégias para Subir

Seria muito bom se houvesse um pacotão de informações, bem simples, como segredos da escalada, que eu pudesse simplesmente ensinar a alguém. Mas sabemos que não há! Sabemos também que não há caminho curto ou suave para isto. Por outro lado, racionalize que, para escalar melhor basta rodar mais serras/montanhas e ter uma boa relação peso-potência.

Ou existe algo mais? Bem, certamente um pouco…

——————————————— (linha tracejada? por quê eu fiz isto?)

Para escalar bem você precisa construir uma base de força (Ok, tem que construir um monte de outras coisas também). A força é o componente da aptidão que lhe permite subir mais rápido (isto não tem nada a ver com subir travadão, em marchas pesadas). Você já deve ter ouvido falar de intervalos de resistência de força” ou talvez apenas “intervalos” como é mais popular (em inglês: SE Intervals, de Strength Endurance), não? Estes tais “Intervalos SE” são realizados a uma cadência baixa, de 40 a 60rpm por 10~20 minutos. Eu gosto de fazer sessões de 2x20min, mas muita gente prefere fazer séries de 4x10min. De qualquer forma, você está construindo sua força de escalada. Uma vez que você começa a ter uma boa força nas pernas, será capaz de girar em uma cadência digamos “mais ideal”- na faixa de 90rpm – e pedalar mais rápido por mais tempo até as subidas.

Agora, se estamos falando de uma competição (com ou de escalada), existem algumas estratégias que você pode usar para neutralizar ou esmagar seu oponente – mesmo que você não seja o escalador mais veloz. (os pontos não estão em ordem de importancia, não necessariamente)

1 – Não comece tão forte!

Isto é mais do que comum entre corredores inexperientes. Eles irão contrair seus músculos e começar uma longa subida, em ritmo de “botar os pulmões pra fora”. Deixe-os afundar em seu proprio suor! Normalmente você pode saber por sua linguagem corporal se lhes custa caro, se lhes sai difícil este esforço. Se você estiver muito fora de sua zona de conforto, deixe-o ir embora (do contrário, siga junto). Há uma chance de 90% de que ele vai “explodir” e você o irá ultrapassar a uns 20km/h mais rápido, lá na frente, (naquele caso em que você o deixa ir embora).

2 – Posicionamento

Procure entrar na subida principal junto com algo na faixa de 25% do grupo líder. Isto lhe dá margem para recuar (leia-se: perder algumas posições), no momento oportuno. Você só precisa de alguns poucos e preciosos segundos para mudar de “bufando” para “pronto pra outra”. Recuar, perder algumas posições, lhe permite aproveitar estes preciosos segundos para recuperar a musculatura e o cardio-respiratório.

Se você sabe que uma seção íngreme da escalada está se aproximando, tente ganhar algumas posições antes do terreno empinar de vez, se isto não lhe custar caro.

3 – Entrar no vermelho

Há momentos em que você quer “ir pro vermelho”, e outros em que você quer digamos, “ficar bem com isso”. Se você sabe que a escalada tem um período de trégua e este se aproxima, e tudo que você precisa fazer é superar o próximo passo com o grupo para então descansar, recomendo “entrar no vermelho”, se isso significa fazer-lhe ficar em contato. Se a subida aplaina e você tem a chance de se recuperar do “vermelho”, então vale a pena sofrer para fazer isto nessa seção.

Se a subida continua por muitos kilometros, e o ritmo é muito forte, não tenha medo de perder o contato com o grupo. Eu garanto que você começará a “cortar fora” alguns dos caras à sua frente, quando eles tiverem um “colapso nuclear”. Se você possui um powermeter perceberá o quão pouca potência está gerando depois de haver fritado (um pouco além, se sentirá realizando esforço descomunal, e nada de watts a mais).

4 – Pedalando em pé

Levantar-se do selim é possivelmente a forma mais poderosa de chegar ao topo de uma subida, porém muito mais ineficiente. Pedalar em pé requer diferentes grupos musculares e usa a força dos grupos superiores para puxar as barras do guidão. Com uma formação específica você pode obter melhores resultados pedalando em pé.

Resista à tentação de levantar-se quando o resto do grupo o faz (sua cabeça normalmente lhe dirá que não há outra solução, mas você precisa tentar). Se você não precisa sair do selim, então não perca a sua energia. Entenda também que, levantar-se, é contagioso: Um ciclista se levanta no meio de uma subida, ato contínuo, todo mundo também o faz (se alguém não o faz, deve ser nosso homem forte no pelotão, fique de olho). Se você olhar para o velocímetro ao levantar-se, muitas vezes perceberá que está rodando 1~2km/h mais lento, porque a sua cadência diminui (e quando volta a sentar-se, a velocidade deve por alguns instantes cair novamente, mais de 2km/h). Seja consciente para manter sua cadência em alta ou para subir uma marcha mais leve.

Bom, não estou a dizer que você nunca deve sair do selim, mas que isto é como um coringa, você não usa à toa, entende? Alternar entre sentado e em pé, é por exemplo uma bela estratégia para se esticar e descansar os músculos mais “saturados” (os que você usa enquanto pedala sentado). O importante é fazê-lo em seus próprios termos, se possível apenas em momentos chave.

5 – Atacando

Se eu vejo alguém que está sofrendo, e quero “me livrar” dele, certamente não atacarei. Não há outra maneira mais rápida ou eficiente para chegar ao fundo do poço (ir para o vermelho) do que atacar em uma montanha. A não ser que você seja um escalador puro, um escalador por excelência.

Em detrimento a um ataque fulminante, começarei a colocar pressão lentamente. Eu não quero me levantar e deixar isto óbvio. Vou aumentar o ritmo gradativamente, mas sem permitir que seja em momento algum um respiro para nosso “oponente”, logo atrás de nós.

6 – Puxando os pedais para cima

A puxada é assunto polêmico, não vamos discutir aqui se é verdade ou mito. Alguns amam e outros simplesmente a colocam em descredito; Alguns estudos afirmam categoricamente que não gera mais watts, ao passo que alguns ciclistas juram que pedalando em pé são capazes de gerar muito mais potencia e andar muito mais velozmente. Eu trato como um ato da pedalada, que emprego apenas em 2 situações:

1 – Quando estou em apuros, “caindo pelas tabelas”;

2 – Quero pressionar alguém um pouquinho;

Em ambas situações é uma pedalada suave, de tal forma que, depois de aperfeiçoada, ninguém suspeita que a situação 1 ou 2 (descritas acima) está chegando ou mesmo acontecendo. Ela emprega muito mais o tendão e músculos da panturrilha em sua pedalada, constitui-se um estímulo muscular diferente, que você pode ter à disposição para alternar em algum momento (você frita as panturrilhas enquando relaxa um pouco as coxas).

——————————————- (linha tracejada de novo? fala sério!)

É isto, não existe uma receita de bolo ou formula mágica para escalar melhor, não há caminho curto, mas acredito que os parágrafos acima poderão lhe ajudar de alguma maneira. Agora tenha em mente que as subidas estão lá fora, que você precisa praticar lá, e que não será nada fácil no começo.

Tenha também em mente que isto tudo tem a ver com gostar realmente das subidas, das escaladas, que você precisa ter um gosto refinado pelo sofrimento contínuo porque escalar velozmente nunca será confortável. Leve em consideração que isto não é exatamente sobre o ciclista mais forte fisicamente, é sobre o melhor preparado, fisica, intelectual e estrategicamente (talvez alguma coisa mais “…mente”).

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